Dor na face

DOR NA CARA: O MITO DA SINUSITE E O MAL

DA SOCIEDADE MODERNA

           Na prática diária otorrinolaringológica é muito comum recebermos pacientes que se queixam de dor na face ou dor de ouvido. Talvez, essas duas queixas associadas correspondam a mais de 50% dos atendimentos da otorrinolaringologia no pronto socorro adulto.

           Apesar do senso comum, inclusive no meio médico, de que dor na face em região frontal ou maxilar seja sinônimo de sinusite, assim como dor de ouvido seja sinônimo de infecção de ouvido, o que observamos é que em muitos dos casos essas dores são de origem muscular ou articular, decorrente de um quadro chamado Síndrome da Dor Miofascial. Esse transtorno, cada vez mais frequente, vem associado ou não às disfunções da ATM assim como do “bruxismo”, ansiedade e estresse. É importante que a sociedade e os colegas médicos de outras especialidades se familiarizem a essa doença, pois além de sua alta prevalência, pouparia muitos pacientes do uso inapropriado de antibióticos, assim como da solicitação desnecessária de Rx entre outros exames. Na dúvida diagnóstica peço aos colegas que solicitem avaliação com um otorrino antes de iniciarem medicação ou solicitarem exames. Caso isso não seja viável na urgência, avaliem sinais de gravidade que demandam, no caso de uma sinusite, o uso imediato do antibiótico e se não houverem, iniciem tratamento sintomático com avaliação ambulatorial precoce. Vale salientar que uma forma bem fácil de determinar esse diagnóstico diferencial é procurar se há relação da dor facial com sintomas nasais, tal como obstrução, rinorreia ou hiposmia. Embora a Sd. da dor Miofascial possa vir associada a um quadro nasal e possivelmente causar confusão, com esta estratégia já pouparemos muitos diagnósticos inadequados. Outro fator a ser levado em consideração é de que as sinusopatias isoladamente, raramente determinam dor de forte intensidade, diferentemente desta patologia cuja dor é muito forte, por vezes insuportável.

Para quem quiser saber mais sobre o assunto leiam a bibliografia a seguir. Quanto a minha experiência e opinião pessoal seguem algumas observações.

    Nossa face é responsável por demonstrar nossos sentimentos e transmitir, por meio não verbal o que realmente queremos dizer para o mundo. Sendo assim, em circunstâncias de estresse crônico, assim como em quadros de ansiedade e depressão, é natural que nossa resposta motora facial assuma algumas posturas de tensão que envolvam em especial a contratação da musculatura periorbicular com abaixamento das sobrancelhas (famosa cara de bravo ou preocupado) assim como o travamento da musculatura mastigatória (temporal e masseter). Ao assumirmos qualquer postura muscular fora da posição natural por muito tempo desencadeia-se um processo de contratura, determinando a ativação de nódulos chamados de pontos-gatilho miofasciais. Esses, por sua vez, se tornam doloridos e tendem a se cronificar conforme a persistência do quadro. Sendo assim, tem gente que fica tenso e “trava” as costas, tem gente que “trava” o pescoço e tem gente que trava a “cara”. Tem alguns azarados que travam tudo também! O Local de “travamento” vai depender de uma série de características individuais tais como estatura, peso, massa muscular, erros de postura, mastigação e dentição, personalidade, etc. Independente da localização da contratura muscular, a dor é quase sempre o fator que determina a procura médica, embora alguns mais preocupados notem a nodulação causada pelo músculo contraído e logo imaginam que é um tumor maligno.

Vale salientar que por estresse, me refiro não somente a estafa que a rotina do trabalho provoca, mas também, ao estresse pela privação de sono, pelo abuso de estimulantes (café, chá mate, chá verde, cigarro, cocaína, etc), pela alimentação inadequada (seja o excesso ou ficar muito tempo sem comer), e, porque não, pelo nariz entupido de um quadro de rinite exacerbada ou de um resfriado determinando assim agudização de uma dor miofascial associado a uma sinusopatia, mas que, no entanto, a origem da dor não é a secreção nasal ou inflamação da mucosa nasal. Talvez a confusão da sinusite com essas dores faciais se deva a essa associação aos sintomas de incômodo e congestão nasal, mais típicos de uma sinusite propriamente dita.

           Outro aspecto interessante de refletirmos é: Por que nossa musculatura se contrai diante de um estresse? Talvez a explicação nos remeta aos “tempos da caverna”. Imaginemos que como espécie evoluímos dos mamíferos, a partir dos primatas e hominídeos primitivos. Para os genericamente chamados “homens das cavernas” e outros mamíferos selvagens que nos antecederam, uma situação de estresse seria quando tinham que caçar, ou fugir de algum predador. Circunstâncias essas que demandam uso da musculatura, aumento na secreção gástrica para digestão dos alimentos, aceleração dos batimentos cardíacos e aumento da pressão arterial. Tais situações por sua vez eram eventuais, sendo portanto a liberação das substâncias químicas que determinam essas alterações fisiológicas igualmente eventuais. Todavia, haviam momentos em que provavelmente viviam sob estresse múltiplos como no caso de um período de escassez de alimentos ou de briga por território. Esse períodos determinavam a necessidade de uma atenção e alerta constantes e persistentes e portanto maior sensibilidade a qualquer estímulo ambiental, maior agressividade e rápida resposta motora a esse estímulos. Os animais mais adaptados eram aqueles que sobreviveram a essas situações, e carregaram em sua genética essa alta capacidade adaptativa diante do estresse crônico e as transmitiram aos seus descendentes. Evoluímos, portanto, como espécie capaz de se adaptar ao estresse, no entanto, as custas de um estado de aumento metabólico, agressividade, e hipersensibilidade sensorial. Hoje, o estresse crônico não mais está relacionado a briga corporal, nem a fome ou a necessidade de estado de alerta e alta sensibilidade mas a situações de vida diária como o trânsito, o trabalho, os problemas familiares e financeiros, sem contar a velocidade descomunal com que as coisas acontecem desde a revolução da comunicação digital. O resultado é uma epidemia de pessoas com dor muscular crônica e ansiedade generalizada. A solução desses problemas por sua vez se torna difícil já que sem a remoção dos fatores determinantes do estresse, não conseguimos tirar a pessoa do quadro crônico. Devemos apoiar então a mudança generalizada no estilo de vida. Maior prática esportiva para “consumo” dessa tensão muscular e menor exposição a situações crônicas de estresse desnecessárias, como o trânsito, filas e burocracias. Talvez, se a exponencialização final da ansiedade se deu por conta da tecnologia, a ela que devemos recorrer para a resolução em massa, usando-a para otimizarmos nossas tarefas laborais e estressantes.

Tomás Filipe Pellegrini Lopes

Publicado em 7 de novembro de 2017


 

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