Perda Auditiva em Crianças - Atraso de Fala



Começar a falar é um momento crítico no desenvolvimento de um indivíduo e de alta expectativa pela família. Todo mundo quer saber qual vai ser a primeira palavra do Bebê!


Mas quando esse processo começa a tardar?

Qual a hora certa para desenvolver comunicação e como saber se está ocorrendo de maneira saudável?


De fato, essas são dúvidas importantes, não só por uma questão de curiosidade, mas principalmente para garantirmos que a criança possa aproveitar ao máximo a plasticidade neural dos primeiros anos de vida e ter a infra-estrutura cerebral necessária para o melhor desempenho escolar e intelectual possível (1).


Sem os recursos de linguagem, isto é, a habilidade de se comunicar com outras pessoas, nossa capacidade intelectual e social ficam comprometidas. Por esse motivo, neste post vamos explicar sobre como funciona o desenvolvimento de fala, sobre os marcos mais importantes desse processo e quais os sinais de alarmes de possíveis problemas que precisam de atenção.


Como Funciona a Comunicação e seu Aprendizado

Nossa capacidade de comunicação é consequência de um complexo sistema que envolve desde a captação do som pelo ouvido, até o processamento dessa informação pelo cérebro. No ambiente que nos circunda fluem pelo ar as ondas sonoras e para um ouvinte adulto normal identificar se um barulho é o piar de um pássaro em apuros ou a buzina de um carro, parece uma tarefa simples, assim como parece simples pedir um pão na chapa na padaria. Todavia, compreender o significado de "Pão na chapa" é um processo que envolve aprendizado e a interação de diversas partes do nosso cérebro. Ao ouvir o som "Pão-na-chapa", um ouvinte adulto Brasileiro capta a vibração desse som que na cóclea é transformado em um sinal elétrico (Animação 1).


Animação 1- As ondas sonoras que transitam no ar movem nossa membrana timpânica e cadeia ossicular até chegarem na cóclea, que transforma a energia mecânica (movimento) em energia eletroquímica. Imagine a cóclea como um botão na qual a vibração do som pressiona ele e isso promove o disparo de eletricidade, tal processo chamamos de impulso nervoso.


Esse sinal, chamado impulso nervoso, é levado por diversos neurônios (são como cabos elétricos) até uma região do cérebro que é uma espécie de central de controle da audição. Lá, esse impulso será replicado para várias regiões que são outras centrais de controle como o local onde chegam informações visuais, olfativas (cheiro), táteis (textura) e até mesmo em locais que produzem os sentimentos*. Esses locais, por sua vez, aprendem e criam mecanismos de comparação de estímulos auditivos com aqueles que ele recebe dos "orgão" que controlam. Por exemplo, a região responsável pela visão irá aprender que o estímulo enviado pela área da audição referente a palavra "Pão na chapa" corresponde às imagens de "Pão na chapa". Da mesma maneira, a região responsável pela sensação de prazer irá definir que "Pão na chapa" é gostoso e só de ouvir o som já temos um gostinho do que ele pode nos oferecer graças a região responsável pelo paladar. Dessa forma, nosso cérebro vai desenvolvendo complexidade atrás de complexidade em diferentes partes criando uma rede que de fato corresponde a nossa capacidade intelectual e de curso de pensamento.


Durante o desenvolvimento da criança, a fala e a linguagem oral desempenham um papel primordial no estabelecimento desta intrincada rede do pensamento, pois nós seres humanos ouvintes usamos o som das palavras como substrato para darmos significado às coisas e, através da fala, ensinamos nossas crianças. Assim sendo, se a criança não conseguir ouvir ela terá um prejuízo imenso na constituição das bases do pensamento e do aprendizado a não ser que algum método alternativo de linguagem seja estabelecido.


A forma mais simples e primitiva de sabermos se uma criança está ouvindo bem e sendo capaz de processar essa informação auditiva é de fato através da expressão de fala assim como da resposta ao som ambiente. Talvez, instintivamente, saibamos dessa importância e, por isso, existe essa ansiedade familiar pelas primeiras palavras. Sendo assim, vamos abordar sobre os momentos normais de desenvolvimento de fala e o que esperar dos nossos bêbes.


* - Na verdade, não existe um local único no cérebro que diz o que sentimos. Não compreendemos totalmente ainda esse processo, mas a principal hipótese, de forma simplificada, é que existe um sistema que irá trazer a tona experiências presentes e passadas e avaliar como nosso corpo reage a elas (batimento cardíaco, movimentos peristálticos, sudorese, etc), para criar uma valência e um sentimento resultante.

Sentimentos são experiências mentais de estados corporais - António Damásio (3).

Quando os bebês começam a falar? - Marcos de Fala


Falar é consequência de uma audição saudável assim como do resto da estrutura neural envolvida desde a captação do som, o processamento da informação auditiva até a coordenação para mover a boca, pregas vocais etc que resultam na fonação (fala). Existem indícios de que já na vigésima quinta semana de gestação, o feto é capaz de ouvir (1). Ao nascimento, portanto, o bebê já tem boa maturidade nas estruturas que captam o som, que são testadas pelo "teste da orelhinha", mas, em meses a anos subsequentes ocorre ainda maturação do sistema nervoso e estruturas que processam a informação auditiva. Além disso, nesse período, inicia-se o processo de aprendizado que irá culminar no desenvolvimento de linguagem e capacidade de falar.


Ao redor de 1 ano de vida é esperado que as crianças falem as primeiras palavras.


A partir de então, o ganho de vocabulário é bem lento, agregando uma ou duas palavras por semana (2). Quando a criança atinge um léxico (conhecimento de palavras) ao redor de cinquenta, fato que ocorre em torno dos 2 anos de vida, o processo de ganho de fala se intensifica para uma a duas palavras por dia! Isso acontece concomitante ao amadurecimento neuronal (mielinização das fibras) e estabelecimento de uma rede de sinapses (ligações entre neurônios) que possibilita que a criança monte frases simples de duas palavras como por exemplo "Quero água". É como se o vocabulário aprendido fosse os alicerces de um prédio que permite que andar após andar sejam construídos. Neste caso os andares são novas frases ou frases mais complexas (2).


Até os 4 anos esse processo se torna exponencial, as frases vão ganhando complexidade com três a quatro palavras e a criança usa conjunções adequadamente como, "mas" e "e". Além disso, ela se torna capaz de compreender perguntas com "Por que", "Como" e "Quantos".


Entre os 4 e 6 anos a criança desenvolve os conceitos de "igual" e "diferente'', "maior" “menor”, aprende a usar a gramática próximo aos níveis adultos e desenvolve a capacidade de criar histórias e narrativas assim como dar explicações.


Entre os 6 e 8 anos a compreensão se aprofunda e passa a ser limitada pela falta de conhecimento e não pela falta de léxico ou gramática. O raciocínio abstrato amadurece e a criança desenvolve a capacidade de compreender humor assim como metáforas. Além disso, passa a usar vocabulário mais rebuscado e construções gramaticais complexas.


Idade

Capacidade de Compreensão

Capacidade de Expressão

0 m

Olhar para alguém falando

Chora

3 m

Sorrir quando falam brincando e olhando diretamente

Choros diferentes. Ruidos de vogais (oh/ ah)

6 m

Olhar quando chamam pelo nome

Lalam com consoantes (ba, da, ma)

9 m

Parar com o NÃO. Acenar no tchau.

Sinaliza e aponta. Fala mama, papa sem critério.

12 m

Obedecer com gestos a comandos simples como: Pega! Olha!

Diferencia mama e papa. Fala primeiras palavras

15-18 m

Obedecer aos comandos simples com a ação completa.

Adquiri e usa palavras isoladas (água, bola...)

18-24 m

Compreender sentenças

Fala +50 palavras. Monta frases 2 palavras. (Dá água)

24-36 m

Obedecer comandos de 2 ou 3 passos.

Ex.: Pega a água e traz aqui.

Aumenta a complexidade gramatical como uso da do não Ex.: Não pode!

36-48 m

Compreende plural, pronomes e possessívos e questões com "Por que", "Quem" e "Quantos"

Combina 3 a 4 palavras por sentença. Usa conjunções.

48-60 m

Entende conceitos como: igual, diferente, maior, menor.

Conta e reconta estórias. Cria explicações

60-84 m

Compreende humor e metáforas. A limitação se torna o conhecimento somente.

Construções gramaticais maduras e complexas aumento da complexidade

Tabela 1 - Marcos de Fala. Principais capacidades que são esperadas ao longo do desenvolvimento normal de linguagem.


Tabela 1 - Marcos de Fala. Principais capacidades que são esperadas ao longo do desenvolvimento normal de linguagem.


Como saber se a criança está ouvindo e aprendendo a falar - Sinais de Alarme


A forma mais direta de saber se há uma alteração no desenvolvimento da fala é observar o que chamamos de um atraso em algum dos marcos de fala listados na Tabela 1. Consideramos um atraso quando a taxa de desenvolvimento cai abaixo de 75%. Para saber isso, pegamos um determinado marco de fala, por exemplo, as primeiras palavras. O normal é acontecer com 12 meses de vida. Vamos supor que ocorreu com 18 meses de vida. Se dividirmos 12/18 teremos 0,66... ou seja 66% que é inferior a 75%. Logo neste caso há um atraso de fala.


Todavia, existem formas muito mais práticas e até mesmo precoces que são sinais de alarme. A primeira delas é reparar na interação social. Mesmo recém nascidos devem ter responsividade a interações sociais quando bem acordados. Aos 6 meses de vida, um fator que serve de alerta é a falta de risadas ou respostas da criança ao som.


Aos 12 meses chama a atenção se a criança não apontar objetos ou se não usar o mínimo de fala como "mama" e "papa" e aos dois anos, se essa criança não estiver formando frases simples como "dá bola", "quero água" e assim por diante é um sinal de que algo está errado.


Aos 3 anos o sinal de alarme principal é a criança não ser capaz de seguir ordens simples sem a ajuda de gestos como: "Vem cá", "Pega a bola", "Traz para mim", etc.


Sempre que houver qualquer desconfiança quanto a um atraso de fala deve-se buscar a ajuda de um pediatra ou otorrinolaringologista.


Conclusão


A comunicação é uma das habilidade humanas mais poderosas. Ela é essencial para o nosso sucesso como pessoas e nossa capacidade cognitiva. Reconhecer precocemente que uma criança não está desenvolvendo a linguagem adequadamente é essencial para minimizar os impactos de eventuais atrasos de fala e corrigir as falhas que impedem esse desenvolvimento. É muito importante que pais se atentem aos sinais de alarme e na dúvida procurem suporte de um médico.



Sobre o Autor

Tomás Filipe Pellegrini Lopes é médico otorrinolaringologista da Otoliv.

Especializado em Otologia e Neuro-Otologia pela Santa Casa de São Paulo, atualmente é Mestrando em Saúde da Comunicação Humana.


Bibliografia


1 - Litovsky, R. (2015). Development of the auditory system. Handbook of Clinical Neurology, 55–72. doi:10.1016/b978-0-444-62630-1.00003-2


2 - Feldman, H. M. (2019). How Young Children Learn Language and Speech. Pediatrics in Review, 40(8), 398–411. doi:10.1542/pir.2017-0325


3 - Damasio, A., & Carvalho, G. B. (2013). The nature of feelings: evolutionary and neurobiological origins. Nature Reviews Neuroscience, 14(2), 143–152. doi:10.1038/nrn3403

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